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Sentir Sem Sentido

" Se a Vida não te sorrir, sorri Tu para ela."

" Se a Vida não te sorrir, sorri Tu para ela."

Sentir Sem Sentido

30
Nov08

Rumo sem retorno

sp

 

O meu tio Pedro faleceu o ano passado, e deixou-me um baú com livros e objectos pessoais que lhe pertenciam. Só hoje tive coragem para o explorar. Encontrei esta carta, que não foi aberta por ele, uma vez que está intacta. Depois de a ler percebi o motivo daquele olhar meigo, mas eternamente triste.
“Meu querido Pedro!
Não sabia como iniciar esta carta, não sabia como saudar-te, não sabia que palavras me eram permitidas dizer-te, por isso escrevo apenas o que ouço dizer ao meu coração. Sim, agora escuto-o, agora sigo todas as pistas que ele me lança, agora ele é a minha razão.
Como sabes, sempre sobrepus a razão aos sentimentos. E foi por isso, que naquela tarde de Verão, corri sem ti por um caminho diferente.
 Sempre que podíamos íamos para ali passear, era como tu dizias o nosso Rumo sem Retorno. Chamavas-lhe assim, porque apenas fazíamos o caminho para a frente, nunca voltávamos para trás. Os raios de sol mal conseguiam perfurar o arvoredo que nos rodeava. Os passarinhos cantavam alegremente, as folhas dançavam ao sabor do vento que tocava carinhosamente o ar. De mãos dadas seguíamos por uma viela estreita, sem conseguir ver o fim da estrada. Parecíamos o casal perfeito, trocávamos carícias, abraços, beijos, riamos, sorriamos, sonhávamos e brincávamos, como se ainda fossemos crianças. Mas não éramos, infelizmente não éramos. Os teus olhos brilhavam como nunca, as tuas palavras eram tão meigas e doces. Fazíamos quatro anos de namoro, nesse dia. Foste tu que me lembraste disso, tu sabes que eu não atribuía qualquer importância a esses aspectos. Mas tu apenas referiste isso para introduzires um pedido. Recordo-me tão bem. “ Sara, lembras-te há quatro anos roubei-te o primeiro beijo, aqui, numa tarde carinhosa e terna como esta, rodeados das mesmas árvores, e escutando o canto dos pássaros. Hoje, quero pedir-te que cases comigo, e que sejas minha eternamente.” Estas palavras assustaram-me, dos meus olhos rolaram lágrimas, tremi, fiquei sem saber o que te dizer. Eu não podia casar, eu tinha planos para o meu futuro, eu tinha outros objectivos, eu pensava que só seria feliz num outro sitio. “ Não posso” disse-te eu, tentei arranjar milhões de desculpas, mas não consegui evitar as tuas tristes e dolorosas lágrimas, não consegui ver-te assim, larguei a tua mão e corri, corri, no sentido inverso ao que fazíamos sempre. Corri até não poder mais. Fugi de ti, fugi de mim, tudo porque pensava na felicidade que ia encontrar num outro lugar.
Fui viver para Lisboa, tirei um curso, hoje sou gestora de uma importante empresa. Perguntas-te se sou feliz, não não sou. E temo que nunca o seja verdadeiramente.
Voltei aqui, estou neste lugar lindo onde há dez anos te deixei, onde há dez anos fugi da minha felicidade. É Outono, as árvores estão despidas e tristes. As folhas laranjas e castanhas cobrem o chão, como tu adoravas sentir as folhas secas e andar sobre elas. Não consigo evitar que as lágrimas rolem pela minha face.
Olho para a frente e vejo o fim da estrada, mas não tenho forças para caminhar sozinha, por isso aqui fico.
Até breve!!”
 
( texto fictício para a Fabrica de Histórias)

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