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Domingo, 10 de Maio de 2009
Desculpa ter-te perdido!

Tempo perdido. Pensei eu para com os meus botões. Depois de mais de meia hora à procura do dossier de capa verde, que precisava para a reunião que ia ter dali a uma hora, continuava sem o encontrar. Remexi em todas as minhas gavetas, revistei por baixo da cama, quando para meu espanto encontrei um sapato. Era o sapato que tinha usado no baile de finalistas. Senti-me tão mal por tê-lo encontrado. Primeiro, porque culpei o cão do vizinho de mo ter roubado, e cada vez que passava por ele fazia questão de lho lembrar. Pobre rafeiro… Depois, porque tinha deitado o outro sapato para o lixo. Para que é que eu queria apenas um sapato? Irónico o destino, agora encontrava-se ali á minha frente um solitário e perdido sapato… Continuei a caça ao dossier. Vasculhei nos mais recônditos lugares possíveis e alguns inimagináveis, como o armário da casa de banho, onde acabei por encontrar um estranho caderno velho. Tentei lembrar-me qual o motivo da existência daquele caderno, e subitamente lembrei-me: O meu diário! Mas como é que ele veio aqui parar? E eu a pensar que o tinha perdido para sempre. Era um diário antigo, da minha adolescência. Comecei a desfolhá-lo, e parei numa página que começava assim,

“25 de Maio de 2000
Querido amiguinho,
Mais um dia perdido, nesta, já mais que perdida, adolescência.”
 
Achei curioso e por isso continuei a ler.
 
 
“Perdi de vez a vergonha, e declarei-me ao Francisco a semana passada. Eu já te falei sobre o Francisco? Ele é o rapaz mais bonito que eu já vi em toda a minha vida! Mas ele não quer nada comigo. Diz que quer somente ser meu amigo, e que se eu insistir, vou perder a sua amizade. Apesar de as suas palavras terem ferido como nunca o meu coração, decidi, que não ia desistir. E acabei por perder a sua amizade. Deixou de me falar. Oh! Malditos 14 anos. Só desilusões! Perdi um amigo, e estou quase a perder a paciência. Um totó da minha turma anda a mandar-me bilhetes anónimos, como este:

 

“ Sou um pássaro perdido,
Que se esconde nos umbrais.
Sou um amor não correspondido,
Que aumenta cada vez mais.
Sou o vento, sou o ar,
Sou a manhã e a noite escura.
Sou uma estrela, sou o luar,
Por ti sou tudo, minha ternura.”
 
Achas normal? Estou mesmo á beira de perder a minha postura e dizer-lhe que pare de me chatear. Chama-se António. Combina mesmo com ele. Que tonhó! Usa uns óculos redondos, tem aparelho, e umas sardas que mal se notam, mas que lhe ficam super mal. E o cabelo, risco ao lado!! Enfim, o que eu tenho de aturar. Adolescência perdida, definitivamente!!
 
Beijinhos rechonchudos, a tua confidente,
Mary.
 
P.S. Tirando o facto de o António ter aquele aspecto de totó, ele faz-me rir, e é super simpático, e confesso que até lhe acho uma certa piada. Mas não contes a ninguém. Não vou andar com um tonhó! Só se perder de vez o juízo…”
 
Era um bocadinho fútil eu, ahh! Já nem me lembrava! Pensei eu. Desfolhei mais umas páginas, e parei nestas:
 
“23 de Julho de 2000
Olá meu querido amigo,
Perdi o António. Acho que ele se cansou de mim. Cansou-se das minhas tampas, das minhas respostas tortas, cansou-se da Mary pindérica que finjo ser… Eu não valho nada. Perdi-o! Acabou o ano lectivo, e ele foi viver definitivamente para Lisboa. Nunca mais o voltarei a ver. E sabes o que me magoa mais? É que eu gostava mesmo dele, mas perdi o meu tempo a negar o que sentia…
 
Beijinhos de mim, simplesmente eu, Maria.”
 
Quando acabei de ler isto, olhei para a fotografia que estava em cima da sapateira, e vi um casal apaixonado, a sorrir. Lembrei-me daquele dia. Era o meu primeiro emprego. Era o meu primeiro dia na empresa. Estava completamente perdida e desorientada. Vi um homem de costas e resolvi ir pedir-lhe ajuda.
- Peço desculpa. - disse-lhe, enquanto lhe tocava ligeiramente no braço. – Pode dizer-me onde fica a sala dos… - calei-me. Não queria acreditar no que vi à minha frente. Não podia ser. Era mesmo ele? Não. Ele tinha óculos, e sardas, e aparelho, e risca ao lado no cabelo, e era um magricelas, e…como é que ele se chamava?
- Sim? Sente-se bem?
Por momentos ficámos um a olhar para o outro. Estava perdidamente perdida.
- Maria? És tu? Maria da Escola dos Caminhos Perdidos? Do 9º ano? És mesmo tu? - inquiriu ele, com um sorriso radiante, como se tivesse ficado feliz por me ver, e ao que parece ficou mesmo.
- Sim, sou. Tu és o…o…o… -tentei lembrar-me do nome dele, mas a minha memória tinha-o perdido.
- O António. – disse-me ele.
 
Triiimmm, trimmmm… a campainha soou, acordando-me dos meus pensamentos e trazendo-me repentinamente para a realidade. Mas que horas são? São quase 3h. Não pode ser! A reunião. Trimmm. – Quem é? Trimmm. – Já vai.
 
-Tu? O que é que estás aqui a fazer? – perguntei.
- É sempre assim que recebes as visitas? – perguntou ele.
- Desculpa. Vou ter uma reunião dentro de instantes, estou atrasadíssima. – puxei-o pelo braço dei-lhe um beijo, e fechei a porta.
- Não te esqueceste de nada?
-Que eu saiba não. Porquê? – inquiri eu, enquanto arrumava a papelada em cima da minha secretária, na esperança de encontrar o dossier.
-  Estes documentos? Não precisas deles?
- Onde é que os encontras-te? – tirei-lhos da mão de repente, radiante, por finalmente os ter descoberto.
- Onde tu os perdes-te. – disse-me rindo. – Deixaste-os no meu escritório hoje de manhã, quando te foste despedir de mim.  
- Deixei? A culpa é tua.
- Minha?!! - perguntou ele…
- Sim tua. Tu deixas-me perdidamente perdida, e é por isso que acabo por perder as coisas…
- Ahhh sim? E também foi por minha causa que perdes-te a reunião?
Eram quase quatro horas e não três, como eu pensava. Por sorte, tinha havido problemas com o voo dos clientes e a reunião tinha sido cancelada.
 
- Desculpa ter-te perdido. – disse-lhe.
- Perdeste-me?
- É uma longa história. Hoje encontrei um diário antigo e …
 
 
(História fictícia para a Fábrica de Histórias)

sinto-me: perdida?
música: Mc CaMs - Para sempre

publicado por sp às 16:45
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Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009
Admiradora secreta?

"14 de Fevereiro de 2008

Gosto de ti. Desculpa. Mas gosto mesmo de ti…

Foi num dia bonito, em que o sol, pintado no azul claro do céu, sorria infatigavelmente e contagiava todos os seres humanos com os seus raios de alegria, que te vi pela primeira vez com o coração. Nunca antes te olhara assim, tão genuinamente…Nesse momento, contemplei o teu sorriso, como outrora, em criança, admirava as estrelas cintilantes que iluminavam o céu escuro, e me faziam rir e deambular por sonhos perdidos… Ao olhar os teus olhos, lembrei-me do incomensurável mar desconhecido desejando descobrir as rotas do teu olhar… O meu coração sentia-se diferente, estava feliz, riu, cantou e pululou de alegria… há muito tempo que não o via assim… Esse dia passou, e outros dias se seguiram uns após os outros. Às vezes via-te, e quando isso acontecia, o meu dia tornava-se maravilhosamente espectacular. Quando não te via, ocupava as intermináveis horas do meu dia a pensar em ti, a imaginar utópicas historias de amor, onde eu e tu éramos as personagens principais, a desejar efusivamente o dia seguinte para te poder vislumbrar…Tu. Tu. E só tu. Eras somente tu quem eu queria ver, ninguém mais me interessava. Porque tu transportavas contigo um mundo diferente… um mundo colorido, um mundo encantado, um mundo especial, para mim. Eu sorria, o meu coração sorria, o meu mundo sorria quando tu me olhavas… Quando a tua ausência, nos caminhos da minha vida, se prolonga por muito tempo, eu olho o mundo e tudo o que me rodeia e vejo-te a ti… olho as estrelas, olho o mar, olho a beleza das borboletas e das flores… e lá estás tu… assim sinto que não estou só e que tu me fazes companhia, tal como o céu, que embora esteja demasiado distante de nós, permanece sempre ali, está sempre presente. Assim como tu estás, em todas as coisas belas e maravilhosas para onde eu olho vejo o teu rosto… o teu rosto e ao lado do teu rosto desenho o meu…Não adianta negar perante mim própria aquilo que o meu coração sente, desde o dia que te viu pela primeira vez… É um facto, o meu coração está perdidamente apaixonado…  Não tenho coragem para te dizer olhos nos olhos o que sinto por ti, por isso escrevi esta carta e nela deixei fluir todos os meus sentimentos...Não sei se vais saber quem sou, ou se vais sentir o que eu sinto, mas quero que saibas que alguém no mundo te acha especial..."
Mariana hoje sorria ao ler a carta que mandara a Pedro no dia de S. Valentim, sentada no seu colo, recordara o momento em que a escrevera, como se sentia e como a colou estrategicamente junto de anúncios plublicitários na casa do Pedro naquele dia em que iam fazer um trabalho de grupo.
- Não sei como descobriste que tinha sido eu a escrever a carta.- disse Mariana com um sorriso nos lábios.
- Sabes, é que eu sou um bom observador.- disse Pedro.
 
( Texto fícticio para a Fabrica de Histórias)
 
 

sinto-me: assim...

publicado por sp às 23:52
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Domingo, 11 de Janeiro de 2009
Estrela Guia da Felicidade

 

Procurei a Felicidade longe de mim, e acabei por me perder nos milhares de caminhos que pensei serem aqueles que me conduziriam até ela. Fiquei completamente só, e senti uma dor tão profunda que nunca antes tinha sentido.

Sempre fui uma menina rebelde, de espírito aventureiro, nada me metia medo, nada. Queria ser feliz e livre como um pássaro. Mas os meus pais não me deixavam. Eram discussões atrás de discussões. Não podiam ir para aqui ou para ali, sem que antes lhe tivesse de dar uma justificação. Estava farta. Por isso, quando fiz 18 anos sai de casa, mudei de cidade, arranjei um trabalho como empregada de bar, e fiquei a dormitar na casa da Gerente desse estabelecimento. Pensei que iria finalmente ser feliz. Os primeiros tempos foram sem dúvida fantásticos, senti-me livre, completamente livre, sem alguém para me controlar. Estava no mundo que sempre tinha sonhado. Fiz alguns amigos, que afinal, nunca mereceram esse nome. Porque depois destes tempos realmente maravilhosos, vieram os problemas, os verdadeiros problemas. Fui despedida, e isso custou-me não só o emprego, como a casa para viver. Pedi ajuda aos meus “novos” supostos amigos mas eles fecharam-me a porta. Senti-me perdida, pela primeira vez, nada fazia sentido. Estava numa cidade desconhecida, no meio de pessoas desconhecidas, podia gritar, mas ninguém iria ouvir a minha voz. Por isso optei por calar o silêncio dentro de mim. Fiquei a viver na rua. As noites eram frias, demasiado frias, mas a dor que eu sentia conseguia ser superior ao frio que me congelava. Numa dessas noites, na última noite, o mundo parecia estar a acabar para mim. Olhei o céu estrelado. Dos meus olhos rolavam dolorosas lágrimas que eu não consegui evitar, tinha perdido a esperança… Recordei-me então de pequenos episódios que antes me irritavam, mas dos quais eu agora sentia saudade. Sentia saudades do meu irmão mais novo a remexer nas minhas coisas, saudades da minha mão a dizer-me: Não chegues tarde, e do Não austero do meu pai. Tinha saudades e percebi que apesar de tudo era com aqueles momentos que eu chorava, mas também sorria. E agora, apenas as lágrimas me faziam companhia, nada mais eu tinha. Não tinha o sorriso de ingénua felicidade do meu irmão, o ombro da minha mão, nem a mão do meu pai para me levantar. Estava só, completamente só… Mas de repente uma Estrela brilhante veio fazer-me companhia.
- Não chores. Levanta-te e segue-me. – disse-me.
Não consegui dizer-lhe uma única palavra, sentia-me sem forças para tal.
- Levanta-te, limpa essas lágrimas e segue-me. Vou levar-te até a Felicidade que tanto procuras. – disse-me novamente aquele ser Brilhante com a sua voz doce.
Não sei onde fui buscar tanta força, mas sei que ergui a cabeça, limpei os pedaços de lágrimas da minha face, levantei-me e fixei os meus olhos naquela Estrela.
Ela começou a caminhar lentamente pelos céus, e eu na Terra segui os seus passos. Depois de várias horas a caminhar a Estrela parou. Baixei a cabeça, olhei à minha volta e percebi que aquele lugar não me era estranho. Virei-me e vi a minha casa. As luzes da sala estavam acesas. Olhei a Estrela brilhante e disse-lhe:
- Porque paraste? Podes continuar, eles não me vão perdoar, e não é aqui que mora a minha Felicidade.
- Não digas parvoíces. A tua Felicidade, a verdadeira Felicidade está ali, sempre esteve, junto das pessoas que te amam e que tu amas. Procuras-te longe de ti, aquilo que sempre tiveste mas que nunca deste valor. A tua Felicidade está na tua Família, deixaste-os e por isso deixas-te de ser feliz. Eles vão perdoar-te sim, porque te amam muito, e por isso, vão perceber que erras-te mas vão abrir-te as portas e abraçar-te. – A estrela retorquiu.
- Mas e os meus sonhos? Eles não estão todos aqui. – disse-lhe eu.
- Os de agora estão. E quando finalmente descobrires que estás preparada para voar, os caminhos dos teus sonhos surgirão, e eu cá estarei para te guiar. – explicou-me ela.
- E como é que eu sei que vou ser feliz longe da minha família se eles são a minha Felicidade? – perguntei-lhe.
- Porque quando trilhares os caminhos dos teus sonhos, não abandonarás os teus pais nem o teu irmão, eles irão contigo no teu coração. E assim, tu saberás construir a tua própria Felicidade num outro lugar qualquer, porque sabes que onde quer que vás eles também estarão contigo. Agora vai. Corre para casa e abraça aqueles que amas. E sê Feliz.
Corri para a porta de minha casa, olhei mais uma vez para o céu e recebi a força daquela Estrela Guia da Felicidade, ela desapareceu quando eu entrei. Fui abraçada por todos, e agora estou feliz. Sinto que já estou preparada para trilhar os caminhos que me levarão aos meus sonhos. Por isso:
- Quando quiseres aparece, porque estou preparada para seguir os teus passos.
 
(Texto ficticio para a Fábrica de Histórias)

sinto-me: Feliz

publicado por sp às 17:17
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Domingo, 4 de Janeiro de 2009
Um Novo Ano, Uma Nova Vida

 Se há um ano lhe dissessem que estaria ali, junto dos seus amigos, ao lado do amor da sua vida, rodeada de alegria e esboçando os mais sinceros e maravilhosos sorrisos, naquela noite de fim de ano, não acreditaria. Há precisamente um ano, Sofia estava internada no hospital, fechada num quarto escuro, sentada no chão junto à cama, e olhando por cima dos ombros para a janela, conseguia ver o céu estrelado, que lhe fazia companhia naquele momento. Para muitos aquela noite era sinónimo de festa, de alegria, de farra e de diversão, para ela, era mais uma dolorosa batalha que ela tinha de suportar sozinha. Na noite de consoada a fraqueza em que se encontrava veio ao de cima, acabou por desmaiar em frente dos seus familiares e este facto despertou-os para a situação real que Sofia estava a viver. Um desgosto de amor conduziu-a a uma depressão. Afastou-se dos amigos, dos seus pais, deixou de fazer aquilo que gostava, deixou de comer, deixou de viver. Os seus olhos eram testemunhas vivas da profundeza da dor em que se encontrava, um sofrimento insuportável, e que se sente só por dentro, e que por isso só ela poderia curar, não existiam medicamentos capazes de curar aquela dor de alma, aquela mágoa que residia no seu coração. Mas, aquela noite ia ser diferente. Recebeu a visita de uma amiga de infância, que não via desde o secundário. Andreia não quis acreditar no que estava a acontecer com aquela que considerava a força em pessoa. Tinha sido nos seus ombros que chorara, tinha sido com ela que aprendera a olhar em frente, quando algo nos quer deixar para trás, fora ela que lhe ensinara que as lágrimas são para se agarrarem nelas e para depois as transformar em sorrisos. Ao vê-la, naquele mundo de dor profunda, não conteve as lágrimas, sentou-se ao pé dela, abraçou-a e nada lhe disse.

- Andreia estás aqui. Não devias estar com os teus amigos? Hoje não é noite de fim de ano? Porque é que estás assim? Não chores…- disse Sofia, com a voz arrastada e muito baixinho.
- Oh Sofia!
Andreia não conseguiu dizer nada. Pensava que não ia ser tão difícil ir visitar a sua amiga e dizer-lhe umas quantas verdades, e fazê-la crer de que tinha uma vida inteira pela frente e que estava a desperdiça-la. Sentiu-se tão fraca e tão triste. Tirou então da sua mala, um pequeno diário. Era o diário de Sofia. Quando se separaram decidiram trocar aqueles pequenos objectos a que chamavam amiguinhos. Abriu uma das páginas e começou a ler:
“ Querido Diário,
Hoje é noite de fim de ano, e como tal venho aqui partilhar contigo os meus desejos:
1º quero que a minha amizade com a Andreia perdure sempre, e que não tenhamos muitas chatices, daquelas que ás vezes temos sem razão.
2º quero que os meus pais deixem de discutir, ficam muito chatos quando o fazem, e eu sei que eles se amam muito.
3º quero que todos os dias deste novo ano sorria, esteja sempre a sorrir, porque a vida é para ser vivida e não lamentada.
4º quero que todos os desejos se realizem, os meus, e os de todas as pessoas.
e por ultimo, eu sei que se costumam pedir 12, mas eu não tenho mais nada para pedir,
5º quero ser feliz para sempre, em todos os dias da minha vida espalhar a alegria, viver até aos cem anos, casar, ter muitos filhos, e ser avó.
Bem, agora vou para ao pé da minha família, é quase meia-noite, e quero pedir estes desejos ao som das badaladas.
Muitos beijinhos da tua amiga confidente
Sofy
31.12.2002”
 
Quando parou de ler, Andreia e Sofia olharam-se, num olhar cúmplice transmitindo força e esperança. Levantaram-se, abraçaram-se fortemente e
- Eu acredito em ti, tu vais conseguir sair deste poço, eu estou aqui, e vou ajudar-te a subir por esta corda que ainda te resta…
- Obrigado Andreia!
As doze badaladas começaram a soar, Sofia olhou os céus, fixou o olhar nas estrelas e sentindo-se cheia de força, de mão dada com Andreia pediu os seus desejos, que seriam objectivos a cumprir no novo ano.
1ªbadalda: quero sair rapidamente do hospital, por isso, vou caminhar e procurar a cura para esta dor interior.
2ªbadalada: quero deixar de chorar
3ªbadalada: quero esquecer o ser que magoou indelevelmente o meu coração
4ªbadalada: quero reencontrar velhos amigos
5ªbadalada: quero estar com os meus pais e abraça-los como antes
6ªbadalada:quero voltar para a Universidade e acabar o meu curso
7ªbadalada: quero voltar a sorrir como antes
8ªbadalada: quero encontrar a paz interior que tanto preciso
9ªbadalada: quero viver
10ªbadalada: quero voltar a apaixonar-me um dia
11ªbadalada: quero que nunca mais deixe de estar tanto tempo sem ver a Andreia
12ªbadalada: quero ser feliz para sempre, em todos os dias da minha vida espalhar a alegria, viver até aos cem anos, casar, ter muitos filhos, e ser avó.
 Sim, desta vez, Sofia precisou de todos os desejos. O caminho da recuperação foi longo e difícil, com algumas recaídas, mas tinha conseguido, e um ano depois estava ali, á espera que soassem novamente as doze badaladas para pedir os seus desejos.

(texto ficticio para a Fabrica de Histórias)



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Domingo, 14 de Dezembro de 2008
Tradição de Natal

 

Em pequena, muito pequena, não entendia porque é que todos os anos, por esta altura, em que as casas se iluminavam com lampadazinhas de várias cores que piscavam, em que se fazia a árvore de Natal, e o Presépio num cantinho bem visível na grande sala, em que cheirava a filhoses e a rabanadas, a minha casa se enchia de crianças desconhecidas. Não percebia, porque tinha eu de dividir o meu espaço, os meus brinquedos, os meus pais e os meus avós, com aqueles meninos de olhar extraviado mas esperançoso que corriam e saltavam no jardim. Não percebia, e também não queria perceber. Sempre que os meus pais se sentavam á minha frente para me explicar o porquê, eu, mimada como era, fingia nada estar a ouvir, enfiava-me no refúgio grandioso do meu quarto e recusava-me a brincar com aqueles seres semelhantes a mim, que me chamavam na sua mais pura inocência. Recusei-me a sair do meu quarto, mesmo na noite de consoada. A casa estava mais cheia do que nunca, para além dos vinte e tal meninos que tinham vindo do orfanato, os meus tios e primos também tinham vindo cear. A minha mãe estava bastante chateada comigo, percebi isso através da voz dela e do seu olhar que tinha perdido o brilho enternecedor que o caracteriza, mesmo assim, fiquei indiferente e deixe-me permanecer na minha bolha de egoísmo. Fiquei completamente sozinha. No meu quarto, que nesse momento me pareceu grande demais para mim, conseguia ouvir as gargalhadas felizes que vinham da sala de jantar. Fui até à janela, olhei as estrelas, e senti que não brilhavam, senti que pequenas lágrimas corriam pelas suas pequeninas faces. Perguntei-lhes porque estavam tristes, e, a mais tristonha de todas respondeu: “ Por tua causa”. Aquela resposta invadiu o meu pequenino interior, e senti-me a mergulhar num mar confuso. Ela prosseguiu: “ Olhas demais para ti, e esqueces que aqueles que estão sentados á mesa com a tua família, são iguais a ti, mas tiveram a infeliz sorte de não terem nascido com uma família como a tua. Muitos deles foram abandonados pelos próprios pais, outros nunca os conheceram, alguns nem sequer sabem o significado de um gesto de carinho, como um beijo ao deitar, ou uma palavra amiga que diz gosto muito de ti. Imagina Beatriz, se acordasses e não tivesses ninguém a quem chamar mãe, se precisasses de limpar as tuas lágrimas quando a tua mãe te recusa um brinquedo e não tivesses a tua avó para te acarinhar. Sabes Beatriz, eles choram porque não tem amor e carinho, choram porque olham para o céu e apenas têm o nosso sorriso por companhia. A tua família acolhe-os e partilha com eles o grande amor que nutre por ti, nesta quadra natalícia, e tu? Porque não partilhas com eles esse coração que tem uma grande amizade guardada? Olha para o teu quarto, tantos brinquedos que não usas, partilha-os. Não fiques presa a um mundo de egoísmo, porque isso só te conduzirá a caminhos de solidão e de tristeza. Faz-nos sorrir outra vez.” E desapareceu. Dos meus olhos saiam vivas lágrimas que se atropelavam sobre a minha face. Corri para a sala de jantar e pedi desculpa a todos. Sentei-me á mesa e ceei com eles. Aqueles meninos todos deram sentido á grandiosidade daquela mesa. Os seus olhos brilhavam e emanavam felicidade. Chamei-os para o meu quarto e partilhei com eles tudo o que o compunha. Brinquei pela primeira vez com algumas das minhas bonecas, brinquei de verdade, como uma criança. A partir desse Natal, todos os outros passaram a ter mais sentido, sempre com aqueles meninos.
Hoje sorrio, ao ver que lá fora as crianças brincam com os meus netos, e enchem a casa e enfeitam-na com os mais ternos e carinhosos sorrisos, nesta quadra natalícia. Olho para o céu e aquela estrela permanece sorridente...
(texto fictício para a Fábrica de Histórias-fabricadehistorias.blogs.sapo.pt)

sinto-me: é natal...

publicado por sp às 17:26
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Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008
Mundos

 

O mundo é um incomensurável mar de injustiças, de guerras, de misérias, de desigualdades, de tristes sorrisos, de egoísmos, de invejas, de maldades, de infelicidades e de dolorosas lágrimas derramadas por quem apenas pede um naco de pão para enganar a fome. O mundo é um espelho nítido das atitudes, das crenças, dos ódios e da falsidade de muitos seres humanos que o habitam. O mundo é um coração magoado e ferido, que não sorri e que todos os dias chora, chora e chora. Chora ao ver uma criança que não tem comida para comer, nem pais que lhe dêem amor e carinho. Chora porque uma família vive na rua, fazendo de uma caixa de cartão o seu tecto. Chora porque vê velhinhos necessitados dotados ao abandono, sem terem ninguém que lhes dê um abraço ou uma palavra de conforto. Chora porque alguém passa por estas vidas, desvia o olhar e segue o seu caminho, sem vacilar, envolto numa bolha flutuante de indiferença, frieza e hedonismo. Chora ao sentir o rebentar de bombas, o som maligno de armas, e o grito desesperante de quem está envolvido numa guerra sem entender bem porquê. Chora porque tudo isto e muito mais, não são situações novas mas que têm perdurado ao longo dos tempos, e que poderá permanecer eternamente, se nós não fizermos nada que mude este rumo sem sentido e triste.
Felizmente, ainda existem pessoas com corações enormes capazes de transformar lágrimas em sorrisos, em aliviar a dor de alguém, e em espalhar pelo seu mundo um amor grandioso. A minha avó foi um desses seres. Ela dizia que uma só pessoa nunca conseguiria mudar as pessoas de todo o planeta, nunca conseguiria acabar com todas as guerras e com toda a miséria existentes á face da terra, mas que cada um de nós podia mudar o nosso pequeno mundo. Segundo ela, todos nós temos um mundo próprio, do qual somos nós os construtores e os governantes. Nele, nós temos o poder de o melhorar, de o tornar um local repleto de alegria, de felicidade, de paz, de amor. O segredo está em simples gestos, em humildes acções.
Todos os anos quando pelo Natal começavam as campanhas para ajudar os mais desfavorecidos, a minha avó ficava sempre indignada, porque os mais pobres não passavam mais dificuldades apenas nesta época natalícia, mas ao longo de todo o ano. A minha avó sempre regera a sua vida em torno dos mais desfavorecidos. Quando andava na escola, partilhava o seu lanche com aqueles que não tinham, dava os seus sapatos às meninas que iam descalças para a escola, partilhava os seus casacos, os seus livros, os seus cadernos. Não eram raras as vezes que a minha bisavó recebia em casa os amiguinhos que a minha avó levava consigo no fim da escola para lhes dar o lanche, o jantar e alguns acabavam por ficar lá a dormir. Sempre vivera bem, rodeada de alguns luxos e de materialismos. Mas ela não gostava desse mundo, não gostava porque paralelamente existiam muitos outros mundos onde a vida era demasiado triste, difícil e dolorosa. No entanto, ela era filha única, e quando os seus pais faleceram todos aqueles bens foram herdados por ela. A minha avó vendeu todos os bens supérfluos que renderam uma quantia avultada que lhe permitiu fundar duas instituições de caridade, uma para idosos, outra para crianças abandonadas. Deu terras a agricultores da terra, para eles cultivarem e poderem ter os seus próprios produtos. Apenas ficou com a quinta, onde crescera, onde construiu a sua família, e onde continuava a receber todos aqueles que precisavam de ajuda. Todos os dias cá em casa era uma correria, dezenas de pessoas entravam e saiam. O aroma da sopa quentinha emanava-se por toda a quinta. Eu sentava-me muitas vezes á borda da mesa, segurando a cabeça com as mãos olhava para aquelas caras que saciavam a fome, e se deliciavam apenas com um simples prato de sopa. No seu olhar um brilhozinho especial sorria quando partiam. Parecia que tinham enriquecido. A ausência da minha avó era muito frequente. Nós tínhamos empregados, que tratavam de fazer cumprir as ordens que ela deixava para continuar a ajudar os pobres da terra. Enquanto ela continuava a ajudar pessoas pelo país fora. Retirava da rua muitos sem abrigos, que trazia ou para trabalharem na quinta, ou para ajudar nas instituições. Distribuía bens alimentares por famílias mais desfavorecidas, e conseguiu sensibilizar outras famílias possantes a fazerem o mesmo. Nem mesmo a idade a avançar, o nascimento dos netos, ou o falecimento do meu avô a fizeram parar, ou vacilar. Digo mais, nem mesmo na hora da sua morte. Antes de morrer a minha avó pediu-me que continuasse a pequena obra que ela tinha vindo a construir ao longo da sua vida. Não falhei ao seu pedido, e hoje, a minha neta senta-se na borda da mesa, segurando a cabeça com as mãos, e fica ali, horas e horas a olhar para as pessoas que vêm cá amenizar as suas dificuldades. Fundei mais duas instituições, com o nome da minha avó, destinadas aos toxicodependentes, e aos sem-abrigo, com ajuda de amigos economicamente favorecidos.
Sei que o mundo não mudou totalmente, mas também sei que o meu mundo, e o mundo de todos aqueles onde a minha avó entrou, onde eu entrei, e onde futuramente a minha neta entrará, mudaram, melhoraram. Posso dizer hoje, que existem mundos onde os rios correm sorrindo sempre, onde os pássaros voam alegremente, onde as pessoas são felizes e riem, onde o sol sorri e emana um amor incondicional, onde as crianças brincam rolando na erva fresca, onde todas as famílias têm um lar construído com pilares de harmonia, paz e amor.
 
( texto fictício para a Fábrica de Histórias)

sinto-me: nostalgica

publicado por sp às 15:14
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Domingo, 30 de Novembro de 2008
Rumo sem retorno

 

O meu tio Pedro faleceu o ano passado, e deixou-me um baú com livros e objectos pessoais que lhe pertenciam. Só hoje tive coragem para o explorar. Encontrei esta carta, que não foi aberta por ele, uma vez que está intacta. Depois de a ler percebi o motivo daquele olhar meigo, mas eternamente triste.
“Meu querido Pedro!
Não sabia como iniciar esta carta, não sabia como saudar-te, não sabia que palavras me eram permitidas dizer-te, por isso escrevo apenas o que ouço dizer ao meu coração. Sim, agora escuto-o, agora sigo todas as pistas que ele me lança, agora ele é a minha razão.
Como sabes, sempre sobrepus a razão aos sentimentos. E foi por isso, que naquela tarde de Verão, corri sem ti por um caminho diferente.
 Sempre que podíamos íamos para ali passear, era como tu dizias o nosso Rumo sem Retorno. Chamavas-lhe assim, porque apenas fazíamos o caminho para a frente, nunca voltávamos para trás. Os raios de sol mal conseguiam perfurar o arvoredo que nos rodeava. Os passarinhos cantavam alegremente, as folhas dançavam ao sabor do vento que tocava carinhosamente o ar. De mãos dadas seguíamos por uma viela estreita, sem conseguir ver o fim da estrada. Parecíamos o casal perfeito, trocávamos carícias, abraços, beijos, riamos, sorriamos, sonhávamos e brincávamos, como se ainda fossemos crianças. Mas não éramos, infelizmente não éramos. Os teus olhos brilhavam como nunca, as tuas palavras eram tão meigas e doces. Fazíamos quatro anos de namoro, nesse dia. Foste tu que me lembraste disso, tu sabes que eu não atribuía qualquer importância a esses aspectos. Mas tu apenas referiste isso para introduzires um pedido. Recordo-me tão bem. “ Sara, lembras-te há quatro anos roubei-te o primeiro beijo, aqui, numa tarde carinhosa e terna como esta, rodeados das mesmas árvores, e escutando o canto dos pássaros. Hoje, quero pedir-te que cases comigo, e que sejas minha eternamente.” Estas palavras assustaram-me, dos meus olhos rolaram lágrimas, tremi, fiquei sem saber o que te dizer. Eu não podia casar, eu tinha planos para o meu futuro, eu tinha outros objectivos, eu pensava que só seria feliz num outro sitio. “ Não posso” disse-te eu, tentei arranjar milhões de desculpas, mas não consegui evitar as tuas tristes e dolorosas lágrimas, não consegui ver-te assim, larguei a tua mão e corri, corri, no sentido inverso ao que fazíamos sempre. Corri até não poder mais. Fugi de ti, fugi de mim, tudo porque pensava na felicidade que ia encontrar num outro lugar.
Fui viver para Lisboa, tirei um curso, hoje sou gestora de uma importante empresa. Perguntas-te se sou feliz, não não sou. E temo que nunca o seja verdadeiramente.
Voltei aqui, estou neste lugar lindo onde há dez anos te deixei, onde há dez anos fugi da minha felicidade. É Outono, as árvores estão despidas e tristes. As folhas laranjas e castanhas cobrem o chão, como tu adoravas sentir as folhas secas e andar sobre elas. Não consigo evitar que as lágrimas rolem pela minha face.
Olho para a frente e vejo o fim da estrada, mas não tenho forças para caminhar sozinha, por isso aqui fico.
Até breve!!”
 
( texto fictício para a Fabrica de Histórias)


publicado por sp às 16:34
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Domingo, 16 de Novembro de 2008
Cinema ao domingo

 

 Para os meus pais, o domingo é e será sempre o dia para estar com a família, e como tal, hoje fui visitar os meus avós paternos á aldeia. Se o dia foi da família, a noite foi planeada com os amigos. Combinei com o meu grupo de amigas ir ao cinema. Estava envolvida e entusiasmada com a história misteriosa que o filme continha, quando o meu telemóvel começou a vibrar. Era uma mensagem do meu irmão, que numa escrita meia atrapalhada me dizia para ir rapidamente para casa. Fiquei seriamente preocupada, o que se teria passado? Saí discretamente. A noite estava fria e solitária. Caminhava apressadamente pelo passeio, apenas o canto melancólico das árvores me fazia companhia. Cheguei a casa. A porta estava entreaberta, as chaves do meu irmão estavam caídas no chão, as luzes estavam silenciosamente apagadas. Um turbilhão de perguntas invadiu o meu interior a uma velocidade estranhamente vertiginosa. Onde estaria ele? Estaria a sentir-se mal e foi pedir ajuda? Algum ladrão tentou assaltar a nossa casa? Porque estava a porta aberta? E os meus pais, onde estavam? O medo apoderou-se de mim, não sabia se devia entrar, ou ir pedir ajuda. Entrei. Fui caminhando até á cozinha. Acendi as luzes. Tudo estava normal, não estava nada arrombado, nem fora do lugar. Sentei-me no sofá, perto da lareira. O silêncio imperava de forma assustadora. Quando de repente, o relógio da sala tocou, assinalando as 11 horas da noite, as luzes apagaram-se, e um ouvi grito arrepiante, sufocante, estridente e perturbador, que vinha de um dos quartos. Pareceu-me familiar…era… era o meu irmão, ele precisava de ajuda. Estava completamente em pânico, mas não podia ficar ali, tinha de fazer alguma coisa, algo se passava. No meio da escuridão, levantei-me, e tentei alcançar através de apalpadelas uma frigideira. Consegui encontra-la, e segurei-a bem na minha mão direita. Fui percorrendo o corredor muito lentamente, apenas sentia o bater do meu coração, que gritava assustado. Nunca antes aquele corredor me parecera tão grande, parecia que a cada passo que dava recuava dois. Senti passos. Passos que vinham de alguém que caminhava atrás de mim. Parei, e senti uma mão pesada pousar sobre o meu ombro esquerdo. Fiquei imóvel, inerte, sem reacção e um frio gelidamente inefável e cortante apoderou-se do meu corpo percorrendo-o á velocidade da luz. Mas, sem tempo para pensar, e instintivamente, girei num movimento incrivelmente rápido e acertei-lhe em cheio na cabeça com a frigideira. Senti um alívio arrepiante quando percebi que ele estava caído no chão.
- David, onde estás, ele já não te faz mal. – disse eu para o meu irmão.
As luzes acenderam-se, o meu irmão apareceu á minha frente envolto de sonantes gargalhadas de gozo. Fiquei atarantada, afinal o que se passava ali. Primeiro tinha soltado um grito que pedia ajuda, e agora ria-se á brava. Num gesto lento, olhei para trás, as feições da face do sujeito que estava deitado no chão não me eram estranhas. Aproximei-me mais, e, não, não podia ser, era o Jorge, o amigo do meu irmão, com quem eu tinha uma relação muito especial, há algum tempo. Tentei ajuda-lo, passei-lhe água pela cara, e ele começou a abrir os olhos estremunhado. Fixou os meus olhos, e ainda atordoado, disse:
- Esta é a forma carinhosa que tu tens de receber os teus amigos??
O meu irmão não parava de rir, e então percebi tudo. O Jorge vinha visitar-me e queria surpreender-me, não daquela maneira, mas o meu irmão fez o favor de dar o seu toque mais emotivo e assustador á surpresa, envolvendo-nos numa cena dos seus filmes.
(história ficticia para a Fabrica de Histórias)

sinto-me:

publicado por sp às 15:48
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Terça-feira, 4 de Novembro de 2008
Paisagem de uma noite sonhada

 

 
 
 
 
 
(imagem retirada da net)
 
 
 
 
Num sorriso discreto e sonolento, os primeiros raios de sol brilhantes, deram-me os bons dias e invadiram o meu quarto desarrumado, fazendo despertar a minha alma que ainda dormitava. Uma alegre recordação da noite passada, fez sorrir entusiasmadamente o meu interior. Levantei-me, senti-me leve, fui até á janela, estava um lindo dia!
-Amo-te sabias? - Sussurraste-me tu ao ouvido, como se me estivesses a contar um segredo que há muito guardavas e ansiavas por me revelar. A noite estava calma, as estrelas cintilantes pareciam alegrarem-se ao verem-nos juntos, o luar estava lindo e beijava o céu numa carícia pura, uma brisa suave abraçava as árvores envolvendo-as numa ternura indescritível, o coaxar das rãs apaixonadas ecoava a nossa linda e vibrante canção de amor, as águas do rio tinham adormecido, e nós, sentados na sua margem esquerda, olhávamos para ele admirando a paz profunda e a tranquilidade permanente do seu sono. Parecia sonhar, pois por vezes suspirava enternecidamente.
-Amo-te. - repetiste-me tu novamente. Olhaste-me e sorriste, como é lindo, esse teu rasgado sorriso de menino alegre cheio de sonhos banais. Nada te disse, pois nada te sabia dizer naquele momento sem tempo. Apenas ri, dei uma daquelas sonantes e, ao mesmo tempo estranhas gargalhadas, que em ti provocaram uma cara de espanto e uma testa franzida. Beijei os teus lábios sentindo a doçura que só eles possuem e sabem guardar, e, naquele breve suave beijo tu percebeste que aquela era a minha diferente maneira de dizer que também te amava.
Os teus olhos claros olhavam os meus indiscretamente, não consegui fugir-lhes, e senti que me falavam através do seu brilho incandescente. Sorris-te ao perceber que também eu te olhava profundamente, e que também te tentava descobrir secretamente. Desvias-te o teu olhar misterioso, passas-te carinhosamente a tua mão suave pelos meus cabelos castanhos compridos e encaracolados, fixaste-te na estrela mais brilhante e mais bonita que enfeitava o céu de veludo azul escuro, e, sem nada o fazer prever, disseste-me:
- Estás a ver aquela estrela? É o teu reflexo. Tem a delicadeza dos teus gestos, o brilho inefável do teu olhar, a malandrice e a meiguice do teu sorriso, o eterno e grandioso amor do teu coração perfeito e a beleza inconfundível do teu rosto e do teu ser. Tu, és a estrela que dá sentido ao rumo emaranhado da minha vida, e sem ti, já não saberia como seria viver.
As tuas palavras suaves e envolventes tocaram-me como uma pena macia. Senti-as e arrepiei-me ao sentir que me pertenciam. Não consegui evitar, e sobre a minha face ebúrnea pequenas lágrimas emocionadas deslizaram lentamente. Não hesitaste e limpaste-me suavemente cada pedacinho das minhas lágrimas tépidas. Queria dizer-te tanta coisa e nada saía, as palavras ficavam presas e atafulhadas, queria dizer-te o que sentia por ti, o quanto eras importante na minha vida e o quanto precisava de ti ao meu lado para poder seguir com confiança os caminhos que o destino me traçava. Nada, nem uma única palavra consegui dizer-te. Mas os teu olhos húmidos souberam ler aquilo que o meu rosto espelhava e o que o meu coração sentia.  Os teus lábios procuraram os meus, e numa carícia e num gesto de puro amor beijamo-nos apaixonadamente. Por cima de nós, uma estrela cadente acabava de rasgar os céus. Pedi um desejo: que este sonho não tivesse sido um sonho, mas uma eterna realidade.
 
( o meu primeiro texto fictício, para a Fábrica de Histórias)

sinto-me:
música: Noite

publicado por sp às 23:23
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